DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS


A revista Veja, que parece condicionar cada vírgula do que escreve a interesses próprios, deixando a informação e a verdade em segundo plano, deu mais uma demonstração de sua inutilidade pública: a bradejante diferença de tratamento à tragédia pluviométrica em São Paulo e, poucos meses depois, no Rio de Janeiro.

Na edição de 10 de fevereiro de 2010, Veja trata da seguinte maneira as enchentes de São Paulo:
Por que chove tanto
Uma rara combinação de fatores atmosféricos é a causa do dilúvio que há mais de 40 dias castiga o Sul e o Sudeste do Brasil.


Na edição de 14 de abril de 2010, Veja trata da seguinte maneira as enchentes do Rio de Janeiro:
Culpar as chuvas é demagogia.
Os mortos do Rio de Janeiro que o Brasil chora foram vítimas da política criminosa de dar barracos em troca de votos.


Ou seja, em São Paulo, as tragédias ocorreram por culpa da natureza e por uma coincidência de fatores atmosféricos. Quando a tragédia ocorre no Rio de Janeiro, porém, o artifício de culpar as chuvas (usado por Veja 2 meses antes) passa a ser demagogia. No Rio a culpa é toda dos políticos enquanto que, em São Paulo, os políticos não têm culpa nenhuma.

Explicação lógica:

Em São Paulo, tanto o governador José Serra como o prefeito da capital do estado Gilberto Kassab são de partidos admirados pela linha editorial de Veja, respectivamente PSDB e DEM (ex-PFL). Como 2010 é ano eleitoral e o governador do estado será o candidato a presidente pelo PSDB, era preciso urgentemente conter o desgaste político que eles estavam sofrendo. Nada mais fácil do que culpar a natureza por isso, afinal de contas ela não fala, não escreve e nem processaria a Veja para ter direito de resposta.

No Rio de Janeiro, por outro lado, tanto o governador Sérgio Cabral como o prefeito da capital Eduardo Paes são da ala governista do PMDB, partido que se posicionou a favor da candidatura de Dilma Rousseff (PT) à presidência e que indicará um vice para a chapa. Assim como em 2006, o objetivo de Veja é desmoralizar ao máximo a admiministração Lula e seus aliados a todo custo.

No Brasil e em boa parte das democracias do Ocidente, os editores de revistas, jornais, emissoras de rádio e televisão divulgam o que acham conveniente e escondem ao máximo o que pode vir de encontro aos seus próprios interesses. Censurar um órgão de imprensa por dar dois pesos e duas medidas para um mesmo fato não é o caminho certo, pois iria de encontro à democracia que, apesar de muito criticada, é o melhor modelo de administração já criado (tanto é que seus críticos nunca foram capazes de propor um modelo melhor). Na realidade, o conceito de imprensa imparcial não existe, nem mesmo nos EUA ou nos países europeus, que têm uma experiência com a democracia muito maior do que o Brasil.

É preciso, contudo, senso crítico por parte de quem lê, ouve ou assiste a algo. Ou seja, é preciso receber uma informação criticamente e se questionar sobre as "verdades absolutas" que os periódicos escrevem, bem como sobre a omissão em certos aspectos. O ideal é se informar em diversas fontes antes de formar uma opinião sobre determinado tópico. Artigos científicos na área médica, por exemplo, devem ser sempre sujeitos à análise de conflito de interesse e de viés. Se uma indústria farmacêutica X financiou determinado estudo e os resultados demonstraram que o medicamento desse laboratório X é o máximo, isso será interpretado com cautela. O mesmo deve valer para jornais, revistas e outros órgãos de imprensa.

As tentativas de Veja de decidir a eleição de 2006 foram várias e incluíram Geraldo Alckmin na capa como o "desafiante", uma lista de motivos para votar nele, ao mesmo tempo em que mostravam escândalos de corrupção dos aliados do governo - e omitiam os escândalos da administração do PSDB no estado de SP e na administração FHC. Quem leu aquilo criticamente, em busca de fatos omitidos e potenciais conflitos de interesse, não foi iludido, porém que usa a Veja como sua única fonte de informação, realmente ganha toda semana novos motivos para achar o que o PT é do demônio e que o PSDB é um partido angelical. Em 2006, a força de Veja não teve a eficácia que teve nas eleições de 1989, quando suas capas mostravam Collor como a solução para os problemas do Brasil.

Portanto, a escolha entre ser manipulado ou ser verdadeiramente informado é de quem recebe as notícias, não de quem emite. Mais importante do que simplesmente ler, ouvir ou assistir a algo, é entender o viés (desvio) e os conflitos de interesse presentes. A liberdade de expressão infere o direito de publicar informações com as quais pode-se concordar ou discordar, o que é saudável para o exercício da democracia. O que não pode é simplesmente absorver uma leitura por osmose e ter aquilo como verdade absoluta e a escolha sobre isso está nas mãos de quem recebe a informação.
POSTADO POR DAVID MELLO EM 02/06/2010
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06 DE SETEMBRO DE 2010


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